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Observatório do Audiovisual Potiguar

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A imagem começa onde a imaginação encontra uma maneira de ganhar forma. Imaginar é abrir espaço para aquilo que ainda não existe, projetando existências, experiências, espaços, possibilidades, encontrando maneiras próprias de narrar o mundo. Na animação em stop-motion, esse espaço se revela entre uma fotografia e outra. A partir da produção manual e do deslocamento quadro a quadro, objetos, personagens e cenários podem ser continuamente transformados, fazendo da própria criação um exercício de imaginação. Um objeto é colocado. A câmera registra. Move-se o objeto minuciosamente. Registra-se novamente. E, assim, nesses pequenos intervalos de tempo, o que era inanimado ganha movimento, e aquilo que existia apenas na imaginação encontra uma forma de contar sua história.

Foi nesse movimento entre imaginar, experimentar e criar que se desenvolveu a segunda edição da oficina do projeto “Reserva em Foco: conectando saberes”, realizada nos dias 3 e 4 de julho, na Escola Municipal em Tempo Integral José Ribeiro da Costa (EMTIJRC), localizada no distrito de Diogo Lopes, em Macau/RN, com as crianças do 5° ano do fundamental. A experiência retomou o percurso iniciado na primeira edição, quando os estudantes foram convidados a olhar para o próprio território a partir da fotografia, e, nesta nova etapa, propôs que experimentassem, por meio da animação em stop-motion, outras possibilidades de olhar e narrar suas histórias locais.

HISTÓRIAS QUE JÁ ESTAVAM AQUI

O distrito de Diogo Lopes é formado, em sua grande maioria, por famílias de pescadores. Os relatos e histórias fantásticas sobrevivem na oralidade e são passadas de geração em geração, como a dos Botos da Costa, grupo de pescadores que saía para dançar na cidade e retornava às embarcações exatamente à meia-noite; Taioca, o homem que pescava voador com um jacaré em cada mão; seu Luís Gaspar e o misterioso objeto luminoso. São muitas as histórias que habitam a comunidade, misturando o cotidiano e a imaginação. Entre elas, a história do Barco Lucarino reserva um lugar especial na memória da comunidade. Em águas passadas, sua história navegou até os oficineiros.

Construído ainda no século passado, o barco atravessou diferentes lugares, carregou outros nomes e acumulou histórias pelo caminho, até encontrar seu porto em Diogo Lopes. Foi ali que o pescador Luís Gaspar o preservou e lhe deu um novo nome, Lucarino, em homenagem à filha, Lucarina. O barco virou referência nas regatas – corridas de barcos à vela – e trouxe muitos prêmios para a cidade. Até que, em uma de suas navegações, o barco naufragou e desapareceu em meio ao mar. Anos depois, em 2013, alguns pescadores perceberam algo diferente em determinada região: onde antes quase não havia peixes, havia agora uma grande quantidade deles. Entre o espanto e a memória, alguém logo encontrou uma explicação que parecia pertencer à própria história do barco “Isso é o Lucarino que está aí”.

Chamaram seu Luís Gaspar. Era preciso descobrir se, de fato, era o seu barco que permanecia escondido sob aquelas águas. Ele mobilizou alguns ajudantes e, juntos, trouxeram um mergulhador para procurar pelo Lucarino. Mas o mar estava turvo. Lá embaixo, quase nada podia ser visto.

Ainda assim, o mergulhador desceu. Procurou entre a água escura até encontrar e puxar um pedaço de pano. Era parte da vela do Lucarino.

A notícia trouxe a alegria de volta à superfície. Seu Luís Gaspar festejou. No dia seguinte, reuniu novamente os pescadores e outros barcos. Levaram tambores para o mar e, com eles, fizeram o Lucarino flutuar outra vez, trazendo-o de volta para cima das águas.

O barco havia sobrevivido ao tempo e ao mar. Estava ali, inteiro, como se tivesse apenas adormecido no fundo. Quando retornaram com o Lucarino para Diogo Lopes, a cidade inteira festejou sua volta. O que havia sido perdido no mar agora retornava à terra, como parte da memória viva de quem esperou por ele.

Essa foi a história contada por Arlete Oliveira, professora da Sala de Leitura e Multimídia da escola e ativista ambiental, durante a Roda de Contação de Histórias que integrou a oficina. Acomodados todos que estavam na sala de aula para ouvir e comentar a história do barco. Foi nesse momento de escuta que algumas das crianças puderam, por meio de fotografias que circularam de mão em mão, reconhecer tanto a figura do Lucarino, quanto alguns dos nomes envolvidos nessa história.

Fotos de Lucarino cedidas por Arlete Oliveira

Nos interessa pensar nas fulgurações produzidas pela própria fotografia em contexto escolar e naquilo que ela mobiliza em nossos modos de perceber. Ao circular entre as mãos das crianças, as fotografias faziam aparecer uma memória para que algo distante no tempo se tornasse novamente objeto de olhar. Como escreve Sontag (2004, p. 13), “as fotos modificam e ampliam nossas ideias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que temos o direito de observar”.

Antes de ganhar imagens e novos contornos pelas mãos dos alunos, Lucarino já existia na memória da comunidade. Foi por isso que, previamente, o escolhemos. Era uma história contada e recontada, atravessada pela oralidade e pelo imaginário de quem vive e navega por aquelas águas. A animação não inventa Lucarino – ela parte de uma história que já navegava por Diogo Lopes para, quadro a quadro, fazê-la navegar de outra maneira.

Chegar à sala com uma história pronta significaria estabelecer de antemão aquilo que deveria ser visto, dito e imaginado. A escolha por uma coletividade aberta aos saberes permitiu que outros pontos de vista entrassem no processo e que a própria realidade fosse sendo desvelada e transformada pelos alunos à medida que a narrativa se construía. É nesse sentido que “educar significa introduzir a cunha da diferença em um mundo que sem ela se limitaria a reproduzir o mesmo e o idêntico, um mundo parado, um mundo morto” (Silva, 2022, p. 101).

INVENTAR COM AS MÃOS

Escolhemos a animação por ser um suporte capaz de acolher diferentes formas de imaginar e narrar. Por meio dela, objetos simples podem se transformar em personagens, cenários podem ser construídos a partir do que está ao alcance das mãos e aquilo que antes existia apenas como ideia pode, pouco a pouco, encontrar uma forma de aparecer. Mas, quais objetos utilizar para construir essa história?

Sendo o distrito de Diogo Lopes um território marcado pela luta dos moradores que viabilizaram a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Ponta do Tubarão (RDSEPT), uma história de mobilização social que também atravessa a relação da comunidade com o ambiente em que vive. É nesse entrelaçamento entre o lugar vivido e as histórias que o constituem que a atividade buscou se inscrever. Por isso, os estudantes foram incentivados a olhar para aquilo que já estava ao seu redor e transformar materiais recicláveis em parte da animação.

Imagens da produção de cenários para animação durante a oficina | Créditos: Observatório do Audiovisual Potiguar

Em um certo momento da oficina, precisamos oferecer uma referência visual e temática para o desenvolvimento da história a ser construída. Com a exibição do curta-metragem de animação “Maré Braba” (Peregrino, 2023), foi possível não apenas elucidar algumas dúvidas sobre o que é o cinema stop-motion, mas também pôr em pauta as ameaças e problemáticas traçadas contra ambientes de vida marinha e de comunidades tradicionais, como é o caso de Diogo Lopes, e a necessidade da ação prática para mudanças concretas.

Créditos das imagens: frames do curta-metragem “Maré Braba” (direção: Pâmela Peregrino, 2023)

Com isso em mente, precisávamos de uma narrativa. Tínhamos mobilizado todos os elementos que queríamos com as crianças: as animações em stop-motion, Lucarino, a importância das histórias, a necessidade de preservação ambiental, mas faltava um elo de conexão para todos esses elementos. Como queríamos que os alunos passassem por todo o processo da construção de um filme, deixamos que eles criassem essa narrativa como bem quisessem – fazendo mediações para que esta fosse executável no tempo que tínhamos.

Com essa abertura, muitas possibilidades começaram a surgir, e era um terreno fecundo para ideias, pois a imaginação e o poder fabulador das crianças o permitem. Uma ideia levava à outra. Quando um braço erguia com uma opinião, o coletivo contribuía para decidir como aquela escolha poderia acontecer. Assim seguimos preenchendo a lousa com uma série de elementos e idéias que os alunos conceberam. Foram denotando problemáticas que estão presentes em Diogo Lopes e reimaginada do barco Lucarino a partir disso.

Essa construção coletiva possibilitou que compreendessem o que a narrativa precisava, o que poderia ser cortado e quais elementos faltavam para contar o que queriam. Ao fim, o barco ganhou uma nova aventura: Lucarino estava no meio do mar quando uma tempestade o alcançou. Em meio às águas agitadas, os animais marinhos se aproximaram para resgatar o barco. Depois de ser salvo, Lucarino encontrou uma maneira de agradecer. Em retribuição ao gesto dos animais, passou a limpar o mar, devolvendo às águas o cuidado que havia recebido. Indo contra aquela ideia de uma realidade imutável, que carrega uma apatia paralisante que se instaura, sem escolher faixa etária, o barco passou a ser um personagem que contempla desejos de alteração da realidade.

Imagens: Storyboard produzido pelos estudantes durante a oficina

O surgimento de personagens foi algo significativo. Em um determinado momento, pareciam muitos para o pequeno cenário desenvolvido pelos alunos. Mesmo assim, cada um carregava um motivo para estar ali: “vi uma vez”, justificava um. Havia ali a possibilidade de inventar, de trazer para dentro da narrativa aquilo que era próprio e conhecido, e isso, antes de tudo, era divertido. Essas ramificações trouxeram a perspectiva das crianças sobre como deveria ser mostrado os elementos, destacando, inclusive suas subjetividades e experiências. É nesse movimento que a animação se revela como recurso expressivo, não apenas como uma técnica para dar movimento às imagens, mas como espaço para que diferentes experiências encontrem uma forma de existir e de transformar, ainda que por alguns instantes, a realidade que as cerca.

As dúvidas também se fizeram presentes, e foi quando enxergamos nossos próprios limites e possibilidades. Com as crianças, isso acontece o tempo todo e é surpreendente acompanhar esse processo. Por exemplo, os alunos adoravam moldar os personagens com massinha. Mas chegou um momento em que perceberam que nem tudo poderia ser feito assim. Como fariam a vela do barco de massinha, se ela pesava demais e afundava a estrutura? A solução veio do papel, mais leve e simples para o que precisavam. Dessa maneira, o personagem principal da animação ia surgindo coletivamente e carregando um pouco de cada pessoa que ajudou a fazê-lo navegar, assim como aconteceu com Lucarino na vida real, onde a mobilização da comunidade o trouxe de volta à vida.

Nas minúcias desse processo de construção da animação em stop-motion, está imbricada uma relação necessária na vida e na identidade de cada um que é a da significação. Processo, esse, que foi convocado no momento em que os alunos reuniram esforços para elaborar essa outra história do barco Lucarino, com o mar que o envolve e todos os outros personagens inseridos, pensados e moldados por eles, modificando e criando esse novo rumo de aventura.

Essa é uma relação em que, por meio da escuta e da observação, aliada ao experimentar-as-coisas, o mundo vai sendo continuamente preenchido num rico potencial de invenção. E nas infâncias, a inventividade é repleta de exercícios do pensar e de uma compreensão própria de mundo que vai sendo construída no dia-a-dia. Então, enquanto criavam as figuras e personagens da aventura do barco Lucarino, iam atribuindo e conferindo sentidos, memórias, palavras e conhecimentos às coisas do mundo vivido e percebido, desde as histórias que escutaram sobre a embarcação até a nova história que haveriam de contar.

Além da visualidade em si, com os elementos de cena, a própria narração da história foi feita pelos alunos, o que lhes confere um protagonismo na contação dessa história. Esse agenciamento criativo aqui confere uma abertura para a potência da criação de mundo. Nesse caso, uma criação que foi a partir de métodos táteis e orais, que culminou na série de imagens em movimento.

FABULAR OUTROS MUNDOS

Contrapondo uma terceirização do imaginar n(o) mundo e, portanto, de aprender n(ele), as experiências que partem da materialidade e se constroem coletivamente no contexto educativo preservam suas fagulhas de vida: possibilidades de participação ativa na vida social, de criação compartilhada e de produção de sentidos.

Modelar as figuras com massinha, recortar papelão e tatear esses objetos pede dedicação e colaboração. Pensar em como narrar essas figuras, com um cenário e história definidos, necessita de uma busca colaborativa pela forma de contar, a seu modo, essa história. Há, nesse processo, uma espécie de demora necessária, é preciso permanecer diante dos objetos, experimentar suas possibilidades, desfazer e refazer escolhas. É no ato de demorar-se em algo ou de “pensar demoradamente sobre a vida” (Lira, 2024, p. 2), que podemos também suspender a pressa de produzir imagens e nos permitir pensá-las enquanto as criamos.

Produção de personagens para animação | Créditos das imagens: Observatório do Audiovisual Potiguar

Vamos também apreendendo e repensando o mundo em que vivemos nessa navegação. Atividades que abrem espaço para o campo de “Cinema e Educação” inserem no ambiente escolar contatos que são repletos dessa inventividade renovadora. O trabalho descrito pelo projeto Inventar com a Diferença, da Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta para esse caminho, pois “através do cinema podemos ter uma experiência singular e intensa com o mundo, uma experiência que é a própria invenção do mundo em que vivemos” (Migliorin, et al., 2016, p. 10).

Na EMJRC, percebemos que a dinâmica coletiva de uma sala de aula se conecta profundamente com a prática cinematográfica de produzir em equipes; de traduzir ideias individuais para o partilhar coletivo. É essa experiência com a coletividade que nos oferece uma riqueza intrínseca ao conviver com a diferença. Isso é viver em sociedade, pois há, nessas atividades em grupo, um terreno fértil para a tomada de consciência sobre a pluralidade constitutiva do mundo que envolve as crianças.

Foi nesse exercício de pensar coletivamente a realidade vivida que o jornal comunitário Vozes da Reserva, organizado pela jornalista Cecília Melo, passou a fazer parte da experiência em sala de aula. Suas páginas, atravessadas por histórias da Reserva, traziam para perto dos estudantes um território que já conheciam, mas que também poderia ser visto por meio de outras narrativas. Ao folhearem o jornal, eles encontravam rostos, lugares e histórias que faziam parte de suas experiências, reconhecendo no papel uma vida que também lhes pertencia.

Mas aquilo que se reconhece também pode ser deslocado pela imaginação. Ao encontrar no jornal elementos de uma realidade próxima, os estudantes também estavam diante da possibilidade de pensar o que poderia ser diferente. Afinal, em um processo repleto de aprendizados, “o saber vai mudando o tempo todo, se alterando e se adaptando às condições” (Marcondes Filho, 2019, p. 18). Esse é um conhecimento que concerne a comunicação e, no entanto, é uma reflexão que se aplica profundamente nas experiências em sala de aula. A animação acompanha esse movimento. Como método cinematográfico e prática de produção em equipe, ela se constrói na mudança, assim como o saber.

Imaginar, escrever e, então, narrar a história do Lucarino, não apenas como a navegação veloz que é, mas como um barco que limpa um trecho de mar poluído é, também, problematizar essa realidade para tramar outras alternativas de vida. A problematização é tida como “a reflexão que alguém exerce sobre um conteúdo, fruto de um ato, ou sobre o próprio ato, para agir melhor, com os demais, na realidade.” (Freire, 2022, p. 111).

A necessidade de evitar um cenário em que a ameaça contra a vida dos mares já existe, ficou sublinhada nas ações e desejos da turma direcionadas ao espaço. Essa dimensão transformadora do que ocorre ao imaginarrar ou ao escreviver (Evaristo, 2022, p. 9) o mundo se conecta com o entendimento de que “a imaginação é parte constituinte da percepção da realidade” e de que, portanto, “o imaginário faz parte da própria constituição da dita realidade” (Martins, 2023, p. 92-93).

Estudantes durante a oficina em Diogo Lopes | Créditos das imagens: Observatório do Audiovisual Potiguar

Essa característica da narração, que ali foi criada ao especularem um rumo alternativo para essa história já conhecida, se expressa numa potência de projeto do real que se revela como comunitária, ao ser “construída por agentes conectados com os fatos encontrados na materialidade”, ou seja, por meio de indivíduos que estão presentes no entorno e que o compõem ativamente (Martins, 2023, p. 93).

Nisso, a participação ativa do corpo docente e de pessoas da comunidade enriquece as atividades coletivas, fazendo dos saberes locais uma força que também participa da criação. Afinal, há diferentes maneiras de olhar, sentir e imaginar o mundo, e são esses modos de percebê-lo que atravessam aquilo que criamos, as histórias que escolhemos contar e até aquilo que conseguimos desejar para além do que já existe. O passado, então, não permanece imóvel – ele chega ao presente, atravessa os modos de perceber o território e pode também alimentar outros desejos de futuro.

FAZER A IMAGEM NAVEGAR

Ao abordar o processo criativo com as crianças, foi necessário um cuidado para que a criatividade delas encontrasse ali um espaço de expressão, e não de cerceio que poderíamos acabar aplicando à experimentação delas. Ao lidarmos com as suas sugestões, adotamos um respeito basilar na prática pedagógica que preconiza que o aprendizado é coletivo. E nós, envolvidos numa atividade de extensão universitária, precisamos conduzir os saberes acadêmicos para uma diretriz de confluência e não de imposição que cristaliza os conhecimentos. Estávamos abertos a possibilidades que nem chegamos a cogitar durante a preparação da oficina. Foram possibilidades pedagógicas, narrativas e criativas que estavam ali à todo instante em ação, nas diferentes etapas da oficina. E era preciso escutar as ideias que iam surgindo. Uma ausência dessa escuta afetaria profundamente o processo que se deu.

Atrelado a essa escuta atenta para as reflexões e práticas dos alunos, também está implicado que estivemos em contato direto com as perguntas que ali surgiram. O questionamento das crianças no percurso encontrou o “e se” na criação da história ficcional acerca do Lucarino.

E se um barco fosse salvo por seres do mar e, em troca, retirasse dali todo o lixo que o polui? Deparar-se cotidianamente com o território ao seu redor e questionar-se com a matriz de um “e se?”, nos remete à ação de especular e de fabular, algo que é intrínseco tanto ao tatear do conhecimento, quanto a produção de um roteiro para o cinema, que é uma obra em aberto.

É com isso em mente que levamos esses métodos para a oficina “Reserva em Foco: conectando saberes”. Se a escuta participativa propõe considerar ativamente, nos contextos educativos, as vozes que já existem naquele espaço, ela também se constrói na busca conjunta pelos saberes que atravessam a comunidade. Nesse caso, a escuta não se limita às paredes da escola: ela se expande para o ambiente em que a escola está inserida e para as relações que se estabelecem com a Reserva.

Aliado a isso, suscitamos as práticas cinematográficas na educação como algo capaz de inserir a motriz da exceção que, pela rigidez da regra, pode permanecer excluída, inaudita. Nas palavras de Alain Bergala: “O ensino se ocupa da regra, a arte deve ocupar um lugar de exceção. […] É essa a diferença entre os ensinos artísticos e a educação artística, entre ensino e iniciação.” (Bergala, 2002, p. 31 e 65). A exceção como possibilidade de experimentar outras formas de ver aquilo que já estava diante de nós. É nesse espaço de abertura que a prática cinematográfica pode encontrar a educação e não para substituir os saberes que já existem, mas para colocá-los em movimento, permitindo que novas relações possam ser construídas.

Estudantes durante a oficina em Diogo Lopes | Créditos das imagens: Observatório do Audiovisual Potiguar

No último dia da oficina, os trabalhos se voltaram para a projeção da aventura criada pelos alunos. Na Sala de Leitura e Multimídia da escola, nos reunimos diante da tela para assistir ao resultado e, ao mesmo tempo, retornar ao próprio processo: foram exibidos a animação e um vídeo de bastidores, ambos editados por membros da equipe da oficina após as atividades no dia anterior.

A projeção, essa pequena e especial sessão de cinema, tornou-se um momento de encontro. Aquilo que havia sido construído entre conversas, escolhas, recortes, movimentos e imagens retornava agora aos estudantes como uma obra concreta. As Aventuras de Lucarino chegava como o resultado de uma experiência atravessada pela colaboração e pela inventividade de todos os envolvidos. Nesse sentido, a sessão também materializava uma compreensão de educação como comunicação, pois, como afirma Freire, “a educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é a transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados” (Freire, 2022, p. 89).

Estar presente no espaço que nos concerne, pensando e partilhando esse espaço, foi também uma maneira de reconhecer que as histórias não chegam prontas àqueles que as narram. Elas carregam as marcas de quem as vive, de quem as escuta e de quem, em algum momento, decide contá-las novamente. As Aventuras de Lucarino nasceu de uma história que já pertencia à memória de Diogo Lopes, mas encontrou nas mãos das crianças outras possibilidades de existir. Entre a vela de papel, os personagens de massinha, as fotografias, as vozes e os pequenos movimentos diante da câmera, uma memória foi sendo remontada sem deixar de ser reconhecida.

Imagens da projeção da animação na escola e encerramento da oficina | Créditos das imagens: Observatório do Audiovisual Potiguar

Um barco que antes repousava no fundo do mar pôde navegar novamente; desta vez, por uma história inventada pelas crianças, ele pôde também cuidar das águas que o receberam. O que aconteceu na oficina não foi apenas a criação de uma animação. Foi a abertura de um intervalo para olhar novamente para o lugar vivido, para aquilo que se sabe sobre ele e para aquilo que ainda se pode desejar. E assim, quando a última imagem desaparece, alguma coisa permanece em movimento. Talvez o cinema seja justamente uma maneira de fazer durar o que passa. É nele que a imaginação respira.

Pode ser que este seja o gesto mais profundo de imaginar: tocar o mundo sem encerrá-lo. Inventar não para abandonar a realidade, mas para fazê-la respirar por outras frestas. Porque há sempre um instante – breve, quase invisível – em que o que foi vivido encontra aquilo que ainda pode ser. Um intervalo entre o que lembramos e o que desejamos. Entre o mundo que recebemos e aquele que, juntos, ainda podemos fabular.

Foi nesse intervalo que Lucarino voltou a navegar. E talvez continue navegando. Não mais apenas sobre o mar, nem apenas sobre a tela, mas nesse lugar onde as histórias permanecem à espera de outras mãos, outros olhos, outras vozes.

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Texto escrito por Lorrana Santos e Lucas de Andrade Araújo
Graduandos no Curso de Comunicação Social – Audiovisual da UFRN.

Ilustrações criadas por Lorrana Santos

Texto revisado por Enzo Sores
Graduando no curso de Jornalismo na UFRN.

Trabalho orientado por Theresa Medeiros
Doutora em Comunicação, professora do Departamento de Comunicação Social da UFRN e do Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia.

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O Observatório do Audiovisual Potiguar é um projeto de extensão desenvolvido com o apoio da Pró-reitoria de Extensão (PROEX – UFRN) e a Pró-Reitoria de Pós-Graduação da UFRN (PPG/UFRN).

REFERÊNCIAS

BERGALA, Alain. A Hipótese-Cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Tradução de Mônica Costa Netto, Silvia Pimenta. Rio de Janeiro: CINEAD/UFRJ, 2008.

CHAUI, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1986. 

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2022.

FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação?. 25 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

LIRA, Ana. Imageando possibilidades da demora: o matutar como filosofia. Revista ZUM, 2024. Disponível em: https://revistazum.com.br/ensaios/imageando-possibilidades-da-demora/.

MARCONDES FILHO, Ciro. A questão da comunicação. Paulus: revista de comunicação da FAPCOM, v. 3, n. ja/jul. 2019, p. 17-26, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.31657/rcp.v3i5.87.

MARÉ BRABA. Direção de Pâmela Peregrino. Brasil: Borboletas Filmes / Instituto Terramar, 2023. 1 curta-metragem (7 min), son., color. Disponível em: https://youtu.be/C3WwLHPRAiQ?is=qO_fCbUqK_36G9AJ.

MARTINS, Kariny. Ficção Especulativa no Cinema Negro Brasileiro: a estética afrofuturista em curtas-metragens. 1. ed. Curitiba: A Quadro, 2023.

MIGLIORIN, Cezar, et al. Cadernos de Inventar: cinema, educação e direitos humanos. Niterói, RJ: EDG, 2016.

SILVA, Tomaz Tadeu. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, Tomaz Tadeu (Org.). Identidade e diferença : A perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 15. ed, 2022.

SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 17. ed., 2004.