Observatório do audiovisual potiguar
O laço entre o espectador e a obra cinematográfica pode ser potencializado de acordo com a forma que essa experiência acontece, promovendo conexões entre quem assiste e a obra audiovisual. Existem diversos formas da experiência cinematográfica ocorrer, uma delas seria a possibilidade de assistir filmes de produções locais, em uma sala de cinema localizada em uma praia ao ar livre, criando uma conexão de regionalidade entre obra e experiência. A Mostra de São Miguel do Gostoso promove essa experiência em uma sala de cinema na praia a céu aberto, neste ano, a mostra realizou sua 12° edição, durante os dias 20 a 24 de novembro, contando com exibições gratuitas de curtas e longa-metragens, de diversos formatos e gêneros cinematográficos, a Mostra de Cinema de Gostoso realiza a exibição de produções nacionais, ajudando a fomentar a difusão do audiovisual brasileiro.

Realizada na Praia do Maceió, a Mostra celebra a cultura, sendo considerada uma das principais mostras de cinema que ocorrem atualmente no Rio Grande do Norte. No ano de 2025 apresentou uma novidade: uma janela específica voltada para produções do RN, por meio da Mostra Potiguar realizada durante sua programação. O programa apresentou nove curta-metragens de produções locais, escolhidos entre os 87 que foram enviados para serem selecionados pela equipe da curadoria composta por Carine Fiúza, Eugenio Puppo, Janaína Oliveira, Mariana Souza e Matheus Sundfeld. Além disso, deve-se destacar a presença do curador e realizador potiguar Rosy Nascimento, que compôs a equipe curatorial dos filmes da mostra potiguar. Os filmes selecionados para a Mostra foram divididos em duas sessões, que ocorriam antes da Mostra Competitiva, onde foram exibidos no dia 22 e 23 de novembro os curtas:

Os curtas exibidos demonstraram as potencialidades do Cinema Potiguar contemporâneo em realizar produções que não se prendem a um único tipo do “fazer audiovisual”, ele transita por diferentes modos de produção e principalmente diferentes gêneros cinematográficos. As produções documentais contam com narrativas que operam de forma sensível, capazes de materializar memórias que irão manter vivas histórias que demonstram força, tradição, identidade cultural e atuações de indivíduos ou grupos dos enredos. Já os curtas ficcionais celebram a determinação e expressividade de indivíduos motivados pelas mais diversas causas, que irão encaminhar suas narrativas de acordo ganância, paixão, busca por questões intimistas ou as que demonstram a força da coletividade. Além disso, destaca-se também a presença de duas animações potiguares, que utilizam diferentes aspectos técnicos e estéticos da animação para expressão de suas ideias.
Além dos nove filmes selecionados para a Mostra Potiguar, outros três curtas-metragens do estado também foram escolhidos para compor diferentes sessões da programação do evento, um na Mostra Panorama e outros dois na Mostra Competitiva. Um deles foi o documentário seridoense “Pupá” com direção de Osani, que venceu o Prêmio do Público de Melhor Curta-Metragem da Mostra Competitiva. As diversas possibilidades de exibição dessas obras apresentam as múltiplas visualidades existentes do audiovisual potiguar com as suas inúmeras narrativas possíveis.
NOVOS HORIZONTES E NOVOS TALENTOS
A vitória do curta Pupá traz consigo marcas de um novo momento da produção regional que se baseia em um maior incentivo que parte do fomento para produções audiovisuais, e em novos talentos que provém do cinema universitário, que apesar de ser um cinema mais artesanal devido a questões como falta de orçamento e equipes reduzidas, conseguem demonstrar suas potencialidades por meio de produções autorais, que agora estão sendo contempladas por editais de fomento. Um dos curtas documentais exibidos foi “A Maré”, dirigido por Jair Libanio, com produção de Rabicó Produções, coletivo audiovisual que nasceu no curso de Audiovisual na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Em entrevista cedida para esta publicação, Jair comenta acerca da importância da presença da Mostra Potiguar e de editais de fomento para produções audiovisuais no Rio Grande do Norte:
Eu acho que foi muito importante, principalmente para a Rabicó, porque a gente tem esse laço muito afetuoso e carinhoso com a Mostra de São Miguel do Gostoso. Esse foi nosso primeiro filme com recurso, primeiro filme que a gente fez basicamente do zero mesmo, procurando ajuda, resolvendo burocracia, tudo por conta própria. E estar aqui é só validação de permanecer fazendo cinema, é bonito sabe? Acho que a Mostra Potiguar proporciona esse momento para a gente… Eles abrirem essa mostra potiguar nesse ano, momento que mais teve produções audiovisuais no nosso estado, eu acho que é uma resposta sobre o nosso audiovisual que é potente, e estarmos no meio disso com certeza é incrível para a gente. (Jair Libanio, diretor do curta “A Maré”).
A Mostra Potiguar apresentou esses novos talentos, que apesar de já estarem produzindo obras em um contexto acadêmico, foi possibilitada pela quantidade de filmes potiguares recebidos pela Mostra, que ao total foram 87, número que jamais foi recebido pela Mostra. Esse fato se deve à disponibilidade de editais para o fomento de produções audiovisuais potiguares nos últimos anos, que podem construir um diálogo com talentos e ideias que já estavam presentes nas produções audiovisuais potiguares, mas intensificar ela.
A MOSTRA POTIGUAR PELO BRASIL
A Mostra de Cinema de Gostoso não chegou ao fim com o seu encerramento, o evento ampliou a sua janela de exibição para todo o país ao fazer uma parceria com o Itaú Cultural Play, uma plataforma de streaming gratuita onde ficaram disponíveis dez curtas-metragens do RN, por meio do programa “Filmes Potiguares”. Essa parceria possibilitou a reverberação das produções locais em outros espaços, reafirmando as suas potencialidades e viabilizando novas discussões ao seu entorno. O programa apresentou obras realizadas em diferentes regiões do Rio Grande do Norte, descentralizando os seus enredos e expandindo alternativas de pertencimento e representatividade. No debate realizado com a equipe de curadoria, Janaína Oliveira comenta com relação às oportunidades que surgem diante desta parceria:
Eu acho que a Mostra Potiguar nasce muito nesse entrecruzamento de um diálogo, com também uma sistematização do campo do cinema aqui no Rio Grande do Norte, como uma demanda também dessa articulação. Eu acho que surgem desdobramentos interessantes, como a parceria com o Itaú Cultural Play, que botou um grupo desses filmes para circular no streaming, fazendo também essa outra janela, só para tentar entender como que o caminho dessa Mostra se consolida, eu acho que é no entrecruzamento da intensificação também do diálogo com o festival com o setor aqui. (Janaína Oliveira, curadora da 12° Mostra de Cinema de Gostoso).

No programa foram disponibilizados seis obras da Mostra Potiguar, dois curtas-metragens exclusivos e outras duas obras do estado que participaram da mostra competitiva. Essa parceria possibilitou uma maior distribuição dessas produções, conseguindo alcançar um público maior e fisicamente mais distante da Mostra, tornando possível para quem não conseguiu estar presente no evento acessar parte da sua programação de maneira gratuita. A ação colaborou com a divulgação do evento, que por meio de um catálogo variado abriu janelas para o Cinema Potiguar, como um convite para conhecer sua multiplicidade criativa.
EXPECTATIVAS PARA O FUTURO DO CINEMA POTIGUAR NA MOSTRA
Na edição da mostra deste ano o cinema potiguar esteve em maior evidência por meio da elaboração da Mostra Potiguar e da própria seleção de outros filmes do estado ao longo da sua programação, como afirmado durante o debate realizado com a equipe de curadoria, Carine Fiúza comentou que foi o momento de “Trazer quem é de casa para o palco”. A realização da mostra ocorreu em um momento frutífero para a produção audiovisual do estado, em que muitos projetos estão recebendo apoio por meio de editais e leis de fomento à cultura, a concretização desta ação expõe como se faz necessário a abertura de espaços como este para a exibição e discussão sobre as produções locais.
As iniciativas tomadas pela Mostra de Cinema de Gostoso valem ser continuadas ao longo das próximas edições, assim impulsionando as inventividades narrativas do estado e tornando possível a materialização das ideias dos seus realizadores, levando-as para além da Praia de Maceió em São Miguel do Gostoso, como a parceria com o Itaú Cultural Play. Essas realizações podem continuar despertando novas possibilidades de criações no estado, com mais políticas públicas e profissionalização do setor. Trazer para o palco quem é de casa é enxergar a maestria dos enredos potiguares e seus diversos modos de existir e fazer cinema.
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Por Dana Teixeira de Mello e Letícia Sousa de França
Graduandas no Curso de Comunicação Social – Audiovisual da UFRN.
Orientadora Theresa Medeiros
Doutora em Comunicação, professora do Departamento de Comunicação Social da UFRN e do Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia.
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O Observatório do Audiovisual Potiguar é um projeto de extensão desenvolvido com o apoio da Pró-reitoria de Extensão (PROEX – UFRN) e da Pró-reitoria de Pesquisa (PROPESQ – UFRN).
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